O terror no Éden

Por francisco razzo, 21 de setembro de 2009 17:43

Por Luiz Felipe Pondé*

“ANTICRISTO”, DE Lars Von Trier, é um grande filme. A acusação de sexista é típica da superficialidade que assola a atual crítica, antes de tudo por falta de repertório, no caso específico, repertório teológico. Von Trier não teme a patrulha ideológica. É preciso coragem para enfrentar o aniquilamento da inteligência levado a cabo por esses gestores da “mediocridade correta”. A ridícula irritação por parte de setores da mídia, cobrando do diretor uma justificativa, é um sintoma. Parte da teologia contemporânea é responsável por essa falta de repertório, na medida em que passou a ensinar uma salada de profetismo iluminista e marxismo espiritual, em detrimento da riqueza teológica de autores como Agostinho ou Lutero.

Além dos elementos que marcam o ambiente do mito da queda, a dedicatória feita ao cineasta-teólogo russo Tarkovski já é uma forte indicação da motivação teológica. Já em filmes como “Dogville” essa temática aparecia centrada na personagem principal, Grace, uma referência ao conceito cristão de “graça divina”. O “filósofo” Thomas Edison Jr. (ele mesmo um canalha) pergunta aos seus concidadãos: “Por que somos tão ingratos?”. Todo o comportamento dos habitantes da vila remeterá a essa ingratidão para com a boa Grace, ingratidão esta materializada nas torturas a que ela será submetida ao longo de sua via dolorosa.

O “Anticristo” é um filme sobre o mal. Com o mal não se brinca, respeita-se. Não se faz terapia com o mal, esse alerta aparece inúmeras vezes na boca da personagem feminina, que pressente sua tragédia. É ridícula a arrogância do marido diante do processo que está em curso na alma de sua mulher. O filme se abre com a queda do filho para a morte enquanto o casal goza deliciosamente. Ao final, saberemos que ela, de olhos abertos em meio ao orgasmo, vê o filho saltar para a morte, mas opta pelo orgasmo. Mas o que está de fato acontecendo com ela? Seria um “luto normal”, como seu marido terapeuta supõe? Não, a morte do filho é a consequência e não causa de sua agonia.

Seu orgulho “científico” o impede, até a sequência final do filme, de perceber que ela não sofre “simplesmente” devido à morte do filho, mas sim pela descoberta do mal que a acometeu desde sua passagem no último verão, sozinha com seu filho, pela casa deles no bosque do Éden, e que sua “escolha pelo sexo” em detrimento do filho a despertou para o pesadelo. Foi esse mal que a levou deixar seu filho morrer. O desejo, habitado pelo mal, se torna uma máquina de tortura contínua, levando o mundo à “descriação” e à desordem.

Não é por acaso que um dos “capítulos” do filme se chama (fato descrito por um dos animais deformados no Jardim do Éden de Von Trier): “Aqui reina o caos”. Como aparece no roteiro sua transformação numa personalidade habitada pelo mal? Além da opção pelo orgasmo em detrimento do filho e as terríveis torturas que ela causa no corpo do seu marido e no seu próprio, a descoberta que ele faz ao ler a carta do instituto médico legal após a autópsia do filho é a gota d’água. Os médicos identificam uma deformação nos pés da criança. E por quê?

Durante o último verão, ela deveria escrever sua tese, cujo tema era criticar a suposição medieval de que a maldade seria intrínseca à natureza feminina. Em vez disso, ela descobre que sua natureza era intrinsecamente má: “A natureza é o templo de Satanás”, ela diz. Ela descobre o “prazer” de calçar os sapatos no filho invertendo os pés, e assim causar um enorme sofrimento à criança. Só diante das torturas a que é submetido por ela e dessa descoberta o marido muda de posição e percebe que deve levar a sério a fala de sua mulher: “Sou má”. Não vou contar o final do filme.

Mas é importante saber que estamos diante de alguém que conhece a antropologia cristã, fruto de muita reflexão e não de mero blablablá ideológico. Pensamos que apenas o darwinismo descreve um cosmo feito de horror. Mas isso não é verdade. Há muito tempo que se sabe que o mundo pode ser um roteiro de horror. O que Von Trier capta é a atmosfera que nosso casal mítico Adão e Eva experimentou após a queda. Não um jardim do Éden onde a natureza é essa criação romântica sem dor, mas uma escura câmara de terror, cheia de gemidos e solidão. A personagem feminina carrega em si toda a tragédia que é ter sido aquela que pressentiu o hálito do mal no mundo e em si mesma. Façamos silêncio em respeito a ela.

*Fonte: Folha de São Paulo.

Lars von Trier’s Antichrist – Official Trailer

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  • franciscorazzo
    Olá Camila! Obrigado pelas palavras. É bom saber que pessoas como você está acessando o site, esse é o propósito e seu objetivo principal! Bom, sempre que precisar pode contar comigo.
    Respeitosamente
    Francisco
  • camilavoigt
    Olá Francisco,
    Gostei muito dessa crítica escrita pelo Pondé. Sou leitora da coluna dele na folha e já o admiro a algum tempo. Foi, procurando a crítica dele sobre o filme no google que encontrei esse site. Estou gostando muito dos temas. Que bom encontrar coisas boas na internet. Agora o site já está nos meus favoritos.
    Sobre o filme Anticristo achei brilhante, belíssimo ao que se propõe.
    Particularmente, o que mais me tocou foi a questão da “maldade materna”, que sempre existiu na natureza e no filme bate de frente com escrúpulos e culpa, genuinamente humanos. Conflito duríssimo de assistir entre consciência humana e inexorabilidade orgânica. Uma crítica genial entre Humano/Moderno X Natural/Selvagem.
    Um filme riquíssimo, cheio de ecos, que não se esgota em possibilidades, típico de uma obra de arte.
    Fora isso um magnífico trabalho de fotografia, As cenas em preto e branco são de uma beleza sublime. Trilha sonora perfeita, direção e atuações impecáveis.

    Abraços

    Camila
  • Olá Francisco,
    Assisti o filme ontem a noite e fiquei bastante impressionado com a profundidade do tema e com a crueza que o tema é tratado por Liers.

    Um filme de arte, tal como um romance bem escrito, nunca é o mesmo para duas pessoas diferentes. Interessante ver que para você o filme gira em torno do mal. Para mim, o filme pareceu uma desconstrução do cristianismo.

    Para o cristianismo, o mal é, basicamente, a condição natural do homem. O homem é mal simplesmente por ser homem. A natureza é a igreja de satã, diz a personagem. Segundo esse conceito, o homem é mal independentemente do que faça, ao passo que tudo que faz é seguir de acordo com sua natureza.

    O filme é uma obra prima, e por ser extremamente simbólico e de difícil entendimento, afasta o observador mediano, medíocre e desatento.

    Fiz uma pequena crítica no meu blog, que pontua os principais elementos, para mim, do filme.

    Abraços e parabéns por esse espaço que, a partir de agora, estará no meu itinerário virtual.
  • Cara Ana Carolina
    Obrigado pela visita. Realmente o texto do Luiz Felipe Pondé sobre o filme está impecável, como sempre o Pondé vai em cheio nas questões fundamentais.
    Volte sempre!
  • Ana Carolina
    A melhor crítica sobre "O anti cristo" que eu li.
    Além de bonito e poético, o texto é também muito sensato.
    Em tempo, quando li somente e não vi o vídeo de Cannes onde o diretor é pressionado com perguntas, fica a sensação que ele teria sido grosseiro e ditador, no entanto quando pude ver o vídeo, percebi que as respostas irônicas estavam em concordância com as perguntas petulantes e sem sentido dos jornalistas presentes, que mais queriam perturbar, provocar do que falar sobre o filme.
  • Cara Ana Florence
    Independentemente de criticar ou não o filme, agradeço a visita e o comentário. De qualquer maneira você tocou num ponto fundamental sobre o filme e, mais do que isso, sobre nossa natureza humana: A beleza que o filme retrata é aquela da verdade [...] somos forçados de um modo ou de outro a nos identificar com personagens tão ambivalentes quanto nós mesmos. Considero esse ponto a espinha dorsal de todo o problema humano!
    Att Francisco
  • Bem, gostaria de fazer um breve comentário a respeito do filme e do texto. Saí do cinema com uma bela indigestão e uma sensação patente de que eu seria incapaz de narrar esta experiência para qualquer um que me perguntasse sobre o filme.
    Para além dos comentários moralistas que são vastos e entediantes, gostaria de fazer um comentário estético: é curioso que apesar do horror e o grafismo quase pornográfico que o filme apresenta, ele suscita um fascínio que para mim está relacionado diretamente com a estética que ele apresenta. Com isto quero dizer que o filme contrapõe um conteúdo absolutamente desgostoso sob uma forma horripilante, porém, bela.
    A beleza que o filme retrata é aquela da verdade, por que a Verdade tem qualidades estéticas. Nós saímos do cinema com um nó na garganta por que somos forçados de um modo ou de outro a nos identificar com personagens tão ambivalentes quanto nós mesmos, e mesmo sob a fantasia toda que o filme nos coloca ainda conseguimos, e somos obrigados a, admitir que também somos vítimas da imbecilidade da razão e da fúria da natureza. Isto é, a nossa verdade é dita por Outro. Uma dupla e antiga humilhação. A novidade é: alguém nomeou o mal e o nome dele é homem (ou mulher para os que preferirem). Agora não são mais imagens demoníacas e animais possuídos, somos nós mesmos os representantes do mal na terra. Há em nós, para além da humanidade a monstruosidade da natureza.
    Pega mal criticar muito o filme, por que isto denuncia a recusa de um olhar mais profundo e complexo sobre si mesmo. E também é chique dizer que adorou para se safar de um contato emocional com o conteúdo que Von Trier apresenta e seguir com a ode à imbecilidade.
    De qualquer modo, não digo se gosto ou não, e só posso acrescentar que o filme anda nos meus sonhos ultimamente e a indigestão: acho que nunca vai passar.
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